Eu adorava a amizade da Fernanda. Ela era casual, inteligente e sarcástica. Sempre me olhava nos olhos e não me dava conselhos, sempre tentava me mostrar uma forma diferente de olhar uma determinada situação. Era a minha amiga para todas as horas. Eu não via mais a Fernanda havia duas semanas, tinha decidido ‘mergulhar ‘ no trabalho. De alguma forma eu precisava fugir daquela solidão. Foi na sexta-feira, que eu entrei no elevador e dei de cara com a moça da festa. Ela estava com uma saia preta acima do joelho e uma blusa branca bordada, segurava o celular, e foi quando reparei uma aliança dourada na mão direita. Naquele momento fiquei decepcionado. Sai do elevador e fui direto para um barzinho. Bebi muito e duas horas depois estava ligando para a Fernanda para dizer que eu era um “burro”. Certamente, ela percebeu que estava bêbado e me encontrou logo depois, debruçado no balcão.
- Não quero ter um amigo alcoólatra – disse me abraçando.
- Vamos beber um pouco? Só mais um pouquinho?
Ela sorriu enquanto procurava algo na bolsa.
- Vou pagar a conta e depois te levo para casa, ok?
- De patins eu não quero ir.
Ela deu uma gargalhada e respondeu:
- Acho que você tinha que ter esse humor sóbrio. Hoje você dorme em casa, os seus pais não vão gostar muito de te ver bêbado assim. Vou ligar lá para avisar.
Acordei no dia seguinte no sofá e com uma dor de cabeça horrível. A Fernanda fez um café e conversamos sobre o porquê havia tomado um ‘porre’.
- Eu só queria entender.
- Entender o quê?
- Porque me apaixono sempre pela pessoa errada.
Ela sorriu.
- As pessoas são assim, se apaixonam por alguém que idealizam. Mas e se você a conhecesse?
- Eu não sei. Como posso imaginar, ela é noiva.
- Não sei Júlio. Às vezes, acho que depois que a conhecesse você colocaria algum defeito e não ligaria no dia seguinte, como fez com a Ana.
- Ah! Mas a Ana...
Ela me interrompeu.
- A Paulinha, a Flávia. Posso citar muitos exemplos. Já dizia o poeta “como são admiráveis as pessoas que não conhecemos”. Tenho certeza que amanhã você estará melhor.
- Você não entende Fernanda eu preciso conhecer essa moça.
- Será apenas um desafio, um capricho.
- Não! Eu só preciso conhecê-la, nada mais.
- Você mente tão bem, que até acredita no que está dizendo.


