terça-feira, 1 de novembro de 2011

Capítulo 5 - Eu sei!

A Fernanda tinha um jeito que me irritava. Ela achava que sabia o que eu pensava e muitas vezes o que eu sentia. Desdenhava dos meus romances e sempre apostava quanto tempo duraria.

Eu passei muito tempo ao lado da ‘Nanda’ e até desconfio que ela realmente saiba tudo sobre mim, mas prefiro negar, ao menos quando ela está por perto.

Já na minha casa, eu fiquei pensando no que a minha amiga “sabe tudo” havia dito, e após um tempo concordei mentalmente que o que estava sentindo era apenas curiosidade. Apenas curiosidade, repeti pra mim no silêncio do meu quarto.

Durante a tarde, participei de uma reunião da família por parte de mãe, onde diversas pessoas resolveram me lembrar do quanto eu era magrelo quando pequeno, dos meus dentes tortos ou de como eu corria na hora que alguém anunciava que eu precisava tomar banho. Elas também não esqueceram os episódios desastrosos, como o que eu quebrei o vaso caríssimo da minha avó Mônica, e para esconder enterrei no jardim. Foram momentos de risadas e descontração.

Entre uma conversa e outra algumas pessoas me questionaram sobre como estava minha melhor amiga. Eu sentia que existia algum tom malicioso quando pronunciavam a palavra amiga. As pessoas não acreditavam muito que éramos apenas e somente amigos. Mas, eu realmente não me importava, tinha a certeza de que sentia por ela um carinho de irmão.

domingo, 5 de junho de 2011

Capítulo 4 - A Pessoa Errada

Eu adorava a amizade da Fernanda. Ela era casual, inteligente e sarcástica. Sempre me olhava nos olhos e não me dava conselhos, sempre tentava me mostrar uma forma diferente de olhar uma determinada situação. Era a minha amiga para todas as horas. Eu não via mais a Fernanda havia duas semanas, tinha decidido ‘mergulhar ‘ no trabalho. De alguma forma eu precisava fugir daquela solidão. Foi na sexta-feira, que eu entrei no elevador e dei de cara com a moça da festa. Ela estava com uma saia preta acima do joelho e uma blusa branca bordada, segurava o celular, e foi quando reparei uma aliança dourada na mão direita. Naquele momento fiquei decepcionado. Sai do elevador e fui direto para um barzinho. Bebi muito e duas horas depois estava ligando para a Fernanda para dizer que eu era um “burro”. Certamente, ela percebeu que estava bêbado e me encontrou logo depois, debruçado no balcão.

- Não quero ter um amigo alcoólatra – disse me abraçando.

- Vamos beber um pouco? Só mais um pouquinho?

Ela sorriu enquanto procurava algo na bolsa.

- Vou pagar a conta e depois te levo para casa, ok?

- De patins eu não quero ir.

Ela deu uma gargalhada e respondeu:

- Acho que você tinha que ter esse humor sóbrio. Hoje você dorme em casa, os seus pais não vão gostar muito de te ver bêbado assim. Vou ligar lá para avisar.

Acordei no dia seguinte no sofá e com uma dor de cabeça horrível. A Fernanda fez um café e conversamos sobre o porquê havia tomado um ‘porre’.

- Eu só queria entender.

- Entender o quê?

- Porque me apaixono sempre pela pessoa errada.

Ela sorriu.

- As pessoas são assim, se apaixonam por alguém que idealizam. Mas e se você a conhecesse?

- Eu não sei. Como posso imaginar, ela é noiva.

- Não sei Júlio. Às vezes, acho que depois que a conhecesse você colocaria algum defeito e não ligaria no dia seguinte, como fez com a Ana.

- Ah! Mas a Ana...

Ela me interrompeu.

- A Paulinha, a Flávia. Posso citar muitos exemplos. Já dizia o poeta “como são admiráveis as pessoas que não conhecemos”. Tenho certeza que amanhã você estará melhor.

- Você não entende Fernanda eu preciso conhecer essa moça.

- Será apenas um desafio, um capricho.

- Não! Eu só preciso conhecê-la, nada mais.

- Você mente tão bem, que até acredita no que está dizendo.

sábado, 4 de junho de 2011

Capítulo 3 - Amiga de Infância

A Fernanda era a minha amiga de infância, nós brincávamos de carrinho, futebol e lutinha. Sempre brigávamos e juramos por diversas vezes nunca mais nos ver. Com a adolescência a nossa amizade amadureceu, e conversávamos sobre coisas em comum como música, livros, patins ou futebol. Eu fazia questão de sempre brincar com ela, "uma Paulista que torcia pelo Flamengo" e ela me olhava com aquele olhar negro a me desafiar. Sempre nos víamos e nos fins de semana fazíamos algo juntos, "para fortalecer os laços de amizade" ela sempre me dizia. Quando chegou em casa foi logo entrando, jogando a mochila em um canto e se jogando no outro sofá.

- Já te falei que este sofá é maravilhoso?

Coloquei as mãos no rosto e sorri.

- Só um milhão de vezes.

- Oi dona Camila. A senhora está bem? – fez questão de gritar.

A minha mãe, com a sua educação de rainha, chegou devagarzinho, deu um beijo no rosto da Fernanda e respondeu cordialmente:

- Eu estou bem Fernanda e você? Os seus pais estão bem?

- Estou bem sim. A minha mãe te mandou um beijo.

- Mande outro para ela. Você quer alguma coisa? Um café talvez?

A Fernanda fez uma careta e respondeu:

- Não, obrigada!

A minha mãe saiu da sala e a Fernanda ficou olhando pra mim. Após um tempo em silêncio, ela entortou um pouco a boca, ficou pensativa e depois me perguntou:

- Aconteceu alguma coisa?

Eu não queria muito papo e apenas respondi:

- Não!

- Não sei, acho que aconteceu e você não quer me contar, mas sem problemas.

A Fernanda tinha uma mania que me irritava profundamente, eu sabia que ela não ficaria quieta até eu contar o que tinha acontecido e eu já previa os minutos seguintes com frases típicas: “o que aconteceu?”, “não vai contar mesmo”, “olha que eu posso te ajudar”. Mas ela ficou com a cabeça baixa e não disse nada.

Percebi que havia algo estranho e olhei pra ela.

- O que aconteceu com você?

Ela levantou e deu um soco devagar no meu peito e disse sorrindo:

- Estou cansada de você!

Ela saiu andando, e reparei em sua roupa: uma blusa básica preta, um jeans largo e calçava um all star, era o jeito "Fernanda de ser". Escutei o barulho da porta da cozinha sendo aberta. Provavelmente, ela tinha ido ao jardim conversar com o meu pai. Era uma pena que o jardim ficasse nos fundos de casa, e as pessoas não pudessem apreciá-lo. Nas horas vagas os meus pais ficavam a maior parte do tempo cuidando do jardim. Uma vez a Fernanda me disse que “quando eles cuidavam do jardim, cuidavam do amor que sentiam um pelo outro”.

Depois de alguns minutos, resolvi levantar e segui os risos que eu ouvia. A Fernanda estava agachada e replantava uma folhagem junto com a minha mãe. Com as mãos sujas de terra, ela correu para me abraçar. Dei um beijo no rosto dela e disse:

- Deixe meus pais cultivarem o amor e vamos tomar um sorvete?

- Ótima ideia Sr. mal humor.

Ela passou no banheiro e lavou as mãos. E eu fiquei a esperando no portão.

- Não vai contar o que você tem?

Dei risada da pergunta e respondi:

- OK. Eu conto!

Durante o caminho até a sorveteria, falei sobre a festa, a moça do vestido azul e ela apenas me escutou. Não disse nada e aquele silêncio me incomodava, pois a Fernanda sempre falava muito.

- E aí, o que você acha?

- Que a vida é complicada demais Júlio – respondeu ela com um tom de voz sério, enquanto abaixava a cabeça e olhava para os pés.

Capítulo 2 - O descompasso dos relógios

Acordei assustado e confuso. A minha cabeça doía muito, provavelmente consequência das caipirinhas que tomei durante a festa.

Olhei no relógio que marcava 15h28. Fiquei pensando que deveria consertá-lo, ou comprar um novo. Fiquei observando o ponteiro, o tique e taque. Deitei novamente, fechando os olhos e me esforçando para lembrar os detalhes do meu sonho. A minha cabeça continuava a doer.

Levantei e após um banho, fui tomar um café para despertar. A minha mãe lavava a louça, provavelmente do jantar e não se virou para dizer o seu habitual “Bom dia filho!”. Olhei no relógio da cozinha, e este marcava 12h30, já o relógio do microondas marcava 00h30. Respirei fundo e disse:

- Mãe temos um grande problema com os relógios desta casa.

- Ah, filho! O seu pai se esqueceu de programar o relógio do microondas. Mas, agora já são 12h30. Pensei em te acordar, mas imagino que tenha chegado tarde da festa.

- Pois é, cheguei sim!

Ficamos em silêncio. Observei a minha mãe, uma mulher inteligente, que tocava piano e era professora de inglês e francês, enquanto meu pai trabalhava no correios. Uma história linda a dos meus pais: uma mocinha rica foge com um cara pobre, para viver um romance proibido. Poderia até ser uma daquelas histórias de romance que alguma professora do ensino médio me obrigou a ler.

Olhei para a minha mãe, os cabelos castanhos claros com mechas de fios brancos estavam presos em um coque. Um momento um tanto nostálgico. Senti saudades do tempo em que eu era apenas um garoto e ela me envolvia em seus braços enquanto lia um livro. Um sorriso surgiu nos meus lábios e continuei tomando o meu café.

A minha mãe secou as mãos e sentou a mesa, perguntando:

- Filho está tudo bem?

- Está sim mãe. Só estava relembrando a minha infância.

- Tempos bons aquele! Também sinto saudades do meu menino magrelo.

O sorriso da minha mãe era doce e solidário. E ela sempre usava um tom de voz baixo para falar. Olhei novamente para o relógio, e minha mãe acompanhou meu olhar.

- A sua amiga Fernanda te ligou, disse que a tarde passa aqui.

Dei um suspiro fundo, me levantei e beijei a testa da minha mãe.

- Obrigada mãe.

Fui para sala e me joguei no sofá, fiquei absorto em meus pensamentos, até a Fernanda chegar e acabar com o silêncio da casa.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Capítulo 1 – A moça do vestido azul

Eduarda, era como gostava de ser chamada agora. Uma mudança e tanto, para quem sempre teve o apelido de Duda! Ela tinha o cabelo curto e loiro, olhos cor de mel, a pele era pálida e sempre usava um batom vermelho. Nos olhos de Eduarda, a tristeza tinha uma cor, pois toda vez que chorava seus olhos ficavam verdes.

A primeira vez que a vi, ela usava um vestido azul um pouco abaixo do joelho, a presilha prata prendia os cabelos para trás e a franja grande caia sobre o rosto. Ela tinha um sorriso casual e seu olhar era atencioso para quem a cercava. Não conseguia me concentrar na conversa com os amigos, apenas admirava aquela moça de estatura baixa que transparecia a doçura de uma menina e a serenidade de mulher.

Fiquei admirando a sua desenvoltura, as suas mãos pequenas e como segurava a taça. Depois de alguns minutos perguntei ao meu colega de trabalho:

- Quem é a moça de vestido azul?

Ele olhou a sua volta, e para minha decepção disse:

- Não a conheço. Pode ser convidada de alguém da empresa.

A beleza daquela moça era comum, mas me atraia de uma forma maluca. Em um segundo de distração, em que o Samuel perguntou sobre a viagem para Buenos Aires, ela sumiu.

A festa acabou e eu não a encontrei, não sabia seu nome e aquele mistério me desafiava. Aquela sensação era estranha, dolorosa, como se eu tivesse deixado passar alguém importante.

Fui embora para casa caminhando, não era longe da festa e eu precisava pensar.

Toda aquela situação me fez lembrar quando eu tinha 18 anos e senti a mesma sensação. Foi em um sábado de primavera, estava subindo a escada rolante do metrô, e ao olhar para baixo, vi uma menina, que provavelmente tinha a minha idade, olhos azuis, o cabelo loiro e comprido, usava um short Jeans um pouco acima do joelho, uma camiseta branca e um tênis rosa e branco. Ela carregava uma mochila bege e estava séria. Fique olhando para ela e quando entramos no metrô sentamos um de frente para o outro. Em um desses momentos em que olhares se cruzam, ela não desviou o olhar, e eu senti aquela sensação de “gelar o coração”. Quatro ‘estações’ depois ela se levantou e eu fiquei imóvel. Ela desceu e pela janela vi que ela me olhava. Eu fiquei parado, esperando o metrô voltar a andar. Com aquela sensação de vazio.

Pronto! Tinha descoberto o que estava sentindo novamente, um grande vazio.

Cheguei em casa, tentando fazer o menor barulho possível, entrei no meu quarto e me joguei na cama, senti a cabeça rodar e os olhos foram ficando pesados. Acabei dormindo de roupa e com os sapatos.

Sonhei com aquela linda moça de vestido azul. Eu a rodava em um campo, onde havia muita luz e ela olhava fixamente pra mim, sorrindo. Acordei tendo a certeza de que nossas vidas não se cruzaram por acaso!

Apresentação

Este blog nasce com o objetivo de escrever uma história sobre vidas que se cruzam, por um segundo, momento ou por toda a vida. Constantes opostos fala sobre o emaranhado das histórias de vidas, a partir de um ponto de vista, o de Júlio, um rapaz de 25 anos que conhece uma moça, um tanto misteriosa e que o proporcionará momentos de reflexão.

Espero que esta história toque o seu coração.

Gesiane Simão