
A Fernanda era a minha amiga de infância, nós brincávamos de carrinho, futebol e lutinha. Sempre brigávamos e juramos por diversas vezes nunca mais nos ver. Com a adolescência a nossa amizade amadureceu, e conversávamos sobre coisas em comum como música, livros, patins ou futebol. Eu fazia questão de sempre brincar com ela, "uma Paulista que torcia pelo Flamengo" e ela me olhava com aquele olhar negro a me desafiar. Sempre nos víamos e nos fins de semana fazíamos algo juntos, "para fortalecer os laços de amizade" ela sempre me dizia. Quando chegou em casa foi logo entrando, jogando a mochila em um canto e se jogando no outro sofá.
- Já te falei que este sofá é maravilhoso?
Coloquei as mãos no rosto e sorri.
- Só um milhão de vezes.
- Oi dona Camila. A senhora está bem? – fez questão de gritar.
A minha mãe, com a sua educação de rainha, chegou devagarzinho, deu um beijo no rosto da Fernanda e respondeu cordialmente:
- Eu estou bem Fernanda e você? Os seus pais estão bem?
- Estou bem sim. A minha mãe te mandou um beijo.
- Mande outro para ela. Você quer alguma coisa? Um café talvez?
A Fernanda fez uma careta e respondeu:
- Não, obrigada!
A minha mãe saiu da sala e a Fernanda ficou olhando pra mim. Após um tempo em silêncio, ela entortou um pouco a boca, ficou pensativa e depois me perguntou:
- Aconteceu alguma coisa?
Eu não queria muito papo e apenas respondi:
- Não!
- Não sei, acho que aconteceu e você não quer me contar, mas sem problemas.
A Fernanda tinha uma mania que me irritava profundamente, eu sabia que ela não ficaria quieta até eu contar o que tinha acontecido e eu já previa os minutos seguintes com frases típicas: “o que aconteceu?”, “não vai contar mesmo”, “olha que eu posso te ajudar”. Mas ela ficou com a cabeça baixa e não disse nada.
Percebi que havia algo estranho e olhei pra ela.
- O que aconteceu com você?
Ela levantou e deu um soco devagar no meu peito e disse sorrindo:
- Estou cansada de você!
Ela saiu andando, e reparei em sua roupa: uma blusa básica preta, um jeans largo e calçava um all star, era o jeito "Fernanda de ser". Escutei o barulho da porta da cozinha sendo aberta. Provavelmente, ela tinha ido ao jardim conversar com o meu pai. Era uma pena que o jardim ficasse nos fundos de casa, e as pessoas não pudessem apreciá-lo. Nas horas vagas os meus pais ficavam a maior parte do tempo cuidando do jardim. Uma vez a Fernanda me disse que “quando eles cuidavam do jardim, cuidavam do amor que sentiam um pelo outro”.
Depois de alguns minutos, resolvi levantar e segui os risos que eu ouvia. A Fernanda estava agachada e replantava uma folhagem junto com a minha mãe. Com as mãos sujas de terra, ela correu para me abraçar. Dei um beijo no rosto dela e disse:
- Deixe meus pais cultivarem o amor e vamos tomar um sorvete?
- Ótima ideia Sr. mal humor.
Ela passou no banheiro e lavou as mãos. E eu fiquei a esperando no portão.
- Não vai contar o que você tem?
Dei risada da pergunta e respondi:
- OK. Eu conto!
Durante o caminho até a sorveteria, falei sobre a festa, a moça do vestido azul e ela apenas me escutou. Não disse nada e aquele silêncio me incomodava, pois a Fernanda sempre falava muito.
- E aí, o que você acha?
- Que a vida é complicada demais Júlio – respondeu ela com um tom de voz sério, enquanto abaixava a cabeça e olhava para os pés.